
O ego é o maior perigo no surf, não o mar
A autoconfiança excessiva representa um risco muito maior do que qualquer condição marítima. Quando o ego distorce o julgamento de um surfista, os perigos silenciosos se multiplicam — e o oceano apenas amplifica o que já estava dentro de você.
O inimigo que você carrega na prancha
Quando pensamos em perigos no surf, nossa mente vai imediatamente para as imagens mais dramáticas: ondas gigantes, recifes cortantes, correntes submarinas traiçoeiras. Mas existe um perigo que nenhuma previsão meteorológica consegue mapear, que nenhum colete salva-vidas protege e que nenhum surfista de apoio consegue resgatar: o ego descontrolado.
A jornalista e surfista Juliana Frare dedicou uma reflexão profunda a esse tema, apontando como a autoconfiança excessiva é responsável por decisões equivocadas dentro e fora da água. O argumento é simples, mas poderoso: o mar não mente. Ele apresenta suas condições de forma objetiva. Quem distorce a realidade somos nós mesmos, quando deixamos o ego falar mais alto do que o bom senso.
O que a ciência diz sobre excesso de confiança
O psicólogo e Nobel de Economia Daniel Kahneman dedicou décadas ao estudo do excesso de confiança — e suas conclusões são desconfortáveis. Segundo ele, somos programados para superestimar nossas capacidades, especialmente em ambientes que nos são familiares. Para o surfista, isso significa que um pico que você conhece bem pode se tornar mais perigoso justamente por ser familiar: a familiaridade gera descuido.
O chamado Efeito Dunning-Kruger aprofunda essa análise. Pessoas com conhecimento intermediário tendem a se sentir mais confiantes do que especialistas — pois ainda não alcançaram a consciência plena de tudo o que não sabem. No surf, essa zona intermediária é perigosa: o surfista já tem técnica suficiente para entrar em ondas grandes, mas ainda não tem experiência suficiente para avaliar todos os riscos envolvidos.
Quando as câmeras mudam tudo
A era das câmeras de ação e das redes sociais adicionou uma camada nova e preocupante a essa equação. O surf deixou de ser apenas um esporte e passou a ser, para muitos, uma performance. A presença de câmeras na água ou na praia cria um incentivo perverso: arriscar mais para ter imagens melhores, para acumular mais visualizações, para construir uma identidade digital mais impressionante.
Quando o surf vira performance estratégica, o ego encontra combustível extra para interferir nas decisões. O surfista não está mais avaliando apenas as condições do mar — está pensando em como vai aparecer no vídeo, no que os seguidores vão achar, em qual onda vai render o clipe perfeito. Esse ruído mental é exatamente o tipo de distração que pode resultar em acidentes graves.
A consciência como proteção real
O verdadeiro ponto de partida do risco está em como cada um se relaciona consigo mesmo. Entrar na água cansado, estressado ou com a cabeça cheia de pressão externa é tão perigoso quanto enfrentar uma onda acima do seu nível técnico. O autoconhecimento, a humildade diante do oceano e a capacidade de dizer "hoje não é meu dia" são habilidades que nenhum manual de surf ensina — mas que podem salvar vidas.
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